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  • Alexandre Biciati

Céu promove karaokê coletivo em BH em noite que ainda teve a ótima Zimun

Na última sexta-feira (03) a Autêntica abriu as portas para receber artistas de estilos bem diferentes, mas que compartilharam bem o mesmo público. Zimun, banda de Belo Horizonte com raízes urbanas que faz rap com instrumental muito fora da curva, e a cantora Céu, intérprete de carreira mais que consolidada na música popular brasileira e uma das vozes femininas mais genuínas em atividade. O primeiro show foi marcado pela potência sonora, enquanto Céu fez uma apresentação intimista e muito elegante, como era de se esperar.


Se perguntassem em 2009 sobre a junção de rap nacional e jazz, certamente poucos apostariam na fórmula. Pois essa é exatamente a proposta do Zimun que consegue fazer dessa mistura excêntrica uma música original de mensagens contundentes com uma camada sonora elaborada e sem exageros virtuosos. A banda é formada por sete integrantes: Ravel Veiga (baixo), Mateus Ramos (bateria), Rafa Nunes (percussão), Gabriel Gabruga (teclado) e Edgard Dedig (guitarra), além dos MC’s Matéria Prima e Fernando Castilho. Com quatro discos lançados, “Alcançando o Céu com os Pés no Chão” (2011), “Surreal” (2013), “Pra Frente” (2014) e “Sobre o Bom Senso e o Senso Comum” (2017), o último com produção de Daniel Santiago, o Zimun preparou um show onde apresentaram músicas do início da banda até o momento atual.


O septeto abriu o set com “Surreal”, do segundo disco, enquanto a casa ainda enchia. Com ares latinos, “Alcançando o Céu com os Pés no Chão” foi a segunda da noite mostrando que o som da banda vai muito além do previsível. Nos microfones, Matéria e Castilho revezam as vozes e camadas melodiosas que ajudam a colorir o som que muitas vezes flerta com o pop, como fica nítido no refrão de “Na Memória”. A guitarra de Edgard Dedig também protagoniza frases criativas como em “Paraísos Artificiais”, que tem pegada imersiva. Ainda fizeram duas versões “gringas”: “Angel Dust” (Gil Scott Heron) e o mashup “C.R.E.A.M – Incentivando o Som” (Wu Tang Clan – Sabotage)” denunciando fortes influências.


O show foi marcado por participações dentro e fora do palco. Como é comum em shows do estilo, o Zimun convidou Leo Bicalho “Leozinho” que cantou “Transeuntes” e Gurila Mangani (ex-Zimun) que fez “Evolucão”. O público também cantou junto e não é mera força de expressão, o microfone foi compartilhado para além dos limites do palco. Tudo funcionou muito bem no que diz respeito à performance do Zimun e a sinergia que estabeleceram com a pista que já apresentava lotação máxima no final do show. A única grande ressalva foi que a banda ainda tinha repertório para tocar, mas tiveram que terminar o show após uma hora de apresentação. Anteciparam então o encerramento e fecharam com “Sopapo”.


Leo Moraes, sócio da Autêntica, anunciou o show da Céu (uma semana após a cantora abrir o show da inglesa Joss Stone em São Paulo) comemorando o fato da artista ser, “uma das figurinhas que sempre fez falta” e que finalmente conseguiram trazer para BH. O palco chamava atenção pela presença de três bandeiras estampadas ao fundo, entregando o cuidado com a produção. Céu pisou no palco com figurino bem característico dos anos oitenta: vestido curto e longas botas brancas, coerente com o repertório que visita aquela época.


Em seu novo show “Um Gosto de Sol”, Céu se joga como intérprete em um repertório de músicas que passeiam por décadas e estilos variados, mas que, principalmente, se mostram adequadas às suas características vocais. O disco homônimo nasceu durante a pandemia e pode ser entendido como uma playlist pautada em gosto pessoal. Fica evidente que a proposta é cantar aquilo que faz sentido e dá prazer, emprestando seu feeling à performance. Sem deixar de lado as músicas autorais que consagraram sua carreira, Céu fez uma apresentação digna de nota.


Muito simpática, Céu manifestou diversas vezes a sensação prazerosa de estar novamente diante do seu público. Acompanhada por Leonardo Mendes no violão, Pupillo na bateria, Lucas Martins no baixo e Sthe Araujo na percussão e backing vocals, abriram com a primeira do disco, o samba “Ao Romper da Aurora” (Ismael Silva), anunciando que dali em diante ouviríamos uma deliciosa seleção de músicas conhecidas para cantar e dançar. Seguindo a sequência do álbum veio “Teimosa” (Antonio Carlos & Jocafi), cuja gravação no álbum tem participação de Russo Passapusso (BaianaSystem).


Contemplando os trabalhos anteriores apresentaram “Arrastar-te-ei” e “Minhas Bics”, do álbum “Tropix” (2016)m e “Pardo”, de “Apká!” (2019). Com movimentos mais contidos até então, Céu se soltou ao interpretar “Chega Mais”, de Rita Lee, e, em seguida, a internacional e desafiadora “Criminal” de Fionna Apple. “Coreto” e “Perfume do Invisível” quebraram mais uma vez a série de interpretações dando lugar às músicas dos discos mais eletrônicos da cantora. A essa altura o público já puxava um coro pedindo seu posicionamento político, ao que Céu respondeu prontamente: “Aqui é Lula, claro!”. A consequência é de se imaginar: um carnaval com enredo clássico.


O ponto mais emocionante do show foi a interpretação da música que dá título ao disco: “Um Gosto de Sol”, clássico de Milton Nascimento que figura em “Clube da Esquina” (1972), certamente soa especial aos ouvidos dos mineiros e foi unanimemente aprovada. No ano em que Milton celebra 80 anos e anuncia sua turnê de despedida dos palcos, a canção teve uma dimensão ainda maior. Ao final da música um sentimento de pertencimento tomou conta das emoções e a plateia homenageou o Clube da Esquina em ovação.


O repertório ainda privilegiou canções de álbuns mais antigos como “Céu” (2005), “Vagarosa” (2009) e “Caravana Sereia Bloom” (2012) com as respectivas “Lenda”, “Grain de Beautè” e “Baile de Ilusão”. Nos primeiros versos da radiofônica “Paradise” (Sade) ficou clara quão bem-vinda é a música no set e como funcionou bem no formato semi-acústico. O show seguiu com a indispensável “Malemolência”, hit de 2005, e a surpreendente “Deixa Acontecer” (Grupo Revelação) que parece uma canção inédita no novo arranjo. Aproveitando o embalo da pista, as próximas foram “A Nave Vai” e “Varanda Suspensa”, ambas do disco “Tropix”.


O show de Céu, recheado de músicas populares e grandes sucessos autorais, funcionou como um karaokê coletivo. Um setlist cantado na íntegra e a plenos pulmões só poderia deixar fãs e artista em lua de mel. Após deixar o palco, o pedido por “mais um” ecoou forte e, após pausa dramática, a banda voltou para o bis para o qual escolheram “Forçar o Verão” (2019), fechando a noite em tom maior.


O isolamento dos últimos anos foi desafiador e agora estamos conhecendo vários projetos que nasceram nesse período medonho que, apesar de todas as mazelas, teve para muitos caráter fértil. Parafraseando Milton Nascimento, realmente, nada será como antes. Como alento, recebemos de braços abertos presentes singelos e muito bem embalados, como o show de Céu, que causam alvoroço e resistem na boca da noite.

Em tempo, tome nota: DJ Black Josie abrilhantou a noite com um set nos intervalos, como diria Maurício Valladares, de tirar pica-pau do oco!



Texto originalmente publicado no site Scream & Yell.

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