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  • Alexandre Biciati

Em meio a percalços, Festival Sarará 2022 promove grandes shows

Por Alexandre Biciati e Bruno Lisboa


Um dos maiores e mais importantes festivais de música de Belo Horizonte, o Sarará fechou uma trilogia de megaeventos realizados no primeiro ano de reabertura após a pandemia na capital mineira, ao lado do Breve e do Sensacional!. Os três festivais nutrem semelhanças entre si como a capacidade de público, estrutura com vários palcos, organização e característica do line-up, sendo que, inclusive, há artistas que participaram das três edições em 2022. De olho na recente experiência local de megaeventos, poderíamos esperar que o Sarará herdaria as melhores práticas e se destacaria positivamente, ma, a edição deste ano sofreu com escolhas que não funcionaram tão bem e negligências que não tiraram o brilho do festival, mas prejudicaram o público, especialmente dos palcos principais, em quesitos como acesso, conforto e segurança.


O local escolhido para o Sarará 2022 foi a Esplanada do Mineirão, mesmo local onde ocorreu o Breve Festival em abril (que também acumulou problemas), mas, desta vez, com ocupação 360 graus do anel ao redor do estádio Magalhães Pinto. Com 44 atrações distribuídas em seis palcos espalhados no perímetro, a organização optou por instalar os dois palcos principais lado a lado para apresentações intercaladas, como aconteceu na edição impecável do Sensacional! no Parque Ecológico da Pampulha em julho. Entretanto, o espaço foi mal dimensionado e o público da pista premium se misturou com o fluxo dos bares no extremo oposto, o que inviabilizou o trânsito entre as áreas durante todo o festival, dada a lotação. Já para o público presente na pista comum as queixas eram sobre o volume do som, quase inaudível, em algumas apresentações, restando a eles usufruir das atrações dos demais palcos.


Em tarde de clima quente, o Sarará abriu os palcos principais com show da Gilsons, banda formada pelo filho e netos de Gilberto Gil, José Gil, Francisco Gil e João Gil, que contou com participação de Rachel Reis. O público que esperava pelo primeiro show, que começou pontualmente às 13h45, era significativo e vibraram com a MPB-Pop do trio que esbanjou simpatia e suingue. Para tornar o show ainda mais especial, José Gil anunciou que estava aniversariando na data – o artista completou 31 anos. Em uma hora de apresentação, além das músicas do disco “Pra Gente Acordar” (2022) e singles da carreira como “Devagarinho”, completaram a hora de show com interpretação de clássicos como “Swing de Campo Grande”, do Novos Baianos. José Gil e João Gil voltarão a BH integrando a banda de Gilberto Gil e Mayra Andrade para show do Sensacional Celebra dia 18 de setembro.


Enquanto isso, no lado oposto da Esplanada, no palco Paredão, a rapper Karol Conká. contou com um público devoto, que não parava de tecer elogios à cantora antes mesmo do início da apresentação. Durante uma hora de show, Conká fez de sua performance uma autêntica sessão de terapia. Ainda curando feridas da sua controversa participação no Big Brother Brasil de 2021, o set list primou canções de seu repertório que versam sobre autoestima e defesa da autenticidade. Acompanhada por um duo de percussionistas e um DJ, a apresentação foi iniciada por “Fuzuê”, faixa presente no seu mais recente disco “Urucum” (2022), que deu o tom da apresentação. O hit “Tombei” surgiu ao final e encerrou uma performance eletrizante de uma artista que ainda tem muito a dizer.


A essa altura, todos os palcos já estavam aquecidos e dividiam o público que chegava em peso e usufruía de espaços muito bem sinalizados. A pontualidade dos shows também ajudou muito para que cada pessoa se organizasse e programasse o deslocamento até os palcos que ficavam a uma distância considerável entre si. Alguns deles ainda careciam de audiência no início da tarde, como o palco Macacolab, que foi inaugurado com show da Quebrada Queer para uma plateia ainda reduzida, mas que respondeu bem à apresentação do grupo e manifestou grande expectativa pela participação da rapper N.I.N.A..


Poucos minutos após o final do show de Gilsons foi a vez da local Marina Sena iniciar sua apresentação no palco ao lado. Com figurino rosa neon, Marina entrou acompanhada de uma equipe de bailarinas e levou a plateia ao delírio com sua performance dançante e muito bem ensaiada com direito a coreografia até quando a bailarina devolveu o microfone à cantora durante “Me Toca”. Além de “Fala Lá Pra Ela”, “Por Supuesto”, “Amiúde” e “Voltei Pra Mim”, Marina lembrou “Ombrim” – sucesso da sua banda de origem Rosa Neon – para euforia geral. Não faltou convite para o recém-lançado “Especial de Primeira” disponível no YouTube e plataformas digitais, EP que celebra o sucesso do primeiro álbum com arranjos inéditos e material audiovisual muito bem produzido.


Com figurino exuberante, Pabllo Vittar fez um dos shows mais aguardados, com momentos emocionantes e fez a plateia cantar muito alto. A artista não poupou esforços para entreter o público interagindo com a pirotecnia, arriscando uma estrela com suas botas enormes e até improvisando durante uma falha técnica do som. “Disk Me” foi o ponto alto do show que emocionou até mesmo a própria cantora. A plateia cantou o refrão de forma catártica em sintonia com a entrega de Pabllo que não poupou nada para fazer o melhor show possível, nem mesmo descer até a grade para um contato tete-a-tete com os fãs. Pabllo ainda dividiu palco com a amiga Urias para três músicas, dentre elas “Ouro”, do álbum “Não Para Não” (2018).


Soando dissonante no lineup, Zeca Pagodinho fez o show de melhor receptividade do festival. Com a autoridade de um artista que acumula 40 anos de carreira e mais de 20 discos lançados, o sambista trouxe para o palco do Sarará uma roda de samba que contagiou quem se deixou levar pelo ritmo mais brasileiro. O fundo de palco colorido transmitia toda energia que o morro emana e que Zeca Pagodinho traduz na forma de canto e tempera com boa dose de carisma.


Interagindo ao longo do show com quem trocava contato, Zeca brindou ao tomar o primeiro gole de cerveja do aparador – que estava abastecido ainda com vinho e água. E, antes que os ânimos não pudessem mais ser contidos, apontou para uma fã na grade e foi logo avisando: “Não chora senão eu choro também. Vamos sorrir!” e jogou pra cima com hits e clássicos definitivos como “Deixa a Vida me Levar” e “Verdade”. Colhendo os louros de um trabalho atemporal, Zeca Pagodinho, fez um show de via dupla onde artista e público trocam prestígio e homenagens. Antes que o show terminasse, Zeca Pagodinho recebeu no palco a visita de Emicida e cantaram juntos “Maneiras” para surpresa geral.


Na sequência, Emicida realizou uma apresentação potente, à altura do posto conquistado de um dos melhores e mais relevantes artistas da atualidade. A apresentação foi baseada em seu disco mais recente, o elogiado “AmarElo” (2019), mas o artista soube dosar de forma equilibrada o repertório de álbuns anteriores como a ótima “Hoje Cedo”. Foi do álbum de 2019, inclusive, que veio a faixa que abriu a apresentação: “A Ordem Natural das Coisas”. Acompanhado por uma senhora banda de apoio, o rapper dividiu a apresentação com os colegas de cena (BK’, Cynthia Luz e Orochi) que aproveitaram a oportunidade para trazer ao festival canções de seus próprios repertórios e foram muito bem recebidos pelo bom público presente.


Após a apresentação de Emicida foi a vez de um tributo a Elza Soares. A “Eterna Rainha” nos deixou em janeiro deste ano e estava escalada como uma das atrações principais do evento. Para manter vivo o legado deixado pela artista, a organização do festival reuniu no mesmo palco um time diversificado de cantoras composto por Paula Lima, Nath Rodrigues, Julia Tizumba, Teresa Cristina e Luedji Luna. Apesar de serem de gerações distintas, o que o quinteto tem em comum é o fato de serem influenciadas pela musicista carioca. No palco, a cadeira de Elza vazia simbolizava a presença da diva. De maneira acertada, as artistas foram se alternandoem cena, e de forma gradual foram revisitando diversos clássicos de fases distintas que definiram a carreira daquela que é, para muitos, uma das vozes mais importantes do nosso país. Ao final, o hino “Mulher do Fim Mundo”, presente no álbum de mesmo nome de 2015 (melhor disco brasileiro dos anos 10, segundo votação no Scream & Yell), foi entoado de forma conjunta pelo time feminino e colocou ponto final em uma apresentação emocionante.


Figura onipresente em festivais, Gloria Groove sabe, como poucos artistas de sua geração, cativar grandes multidões através de uma performance criativa, dançante e de grande apelo visual. Dona de uma voz potente, Gloria representa hoje o que a música pop brasileira tem de melhor. Prova disso é que hits como “Bonekinha” e “Bumbum de Ouro”, executados logo no início da apresentação, colocaram a Esplanada do Mineirão abaixo e foram cantados em uníssono. “Vermelho” e “A Queda” foram os pontos máximos de uma apresentação marcante de uma artista que sabe construir apresentações memoráveis, graças a sua versátil musicalidade e a entrega de energia em estado bruto de sua banda. Ao final do show, um momento fofura: Gloria Groove foi à beira do palco e interagiu com uma fã-mirim que fez declaração para a cantora ao microfone e conquistou a todos com sua espontaneidade.


Por fim, coube ao BaianaSystem a dura tarefa de fechar o festival. O grupo, liderado por Russo Passapusso e Beto Barreto, fez uma apresentação coesa e o público, visivelmente cansado após a maratona de 12 horas de evento, ainda se entregou de forma plena. Foi assim em “Sulamericano”, faixa do álbum “O Futuro Não Demora” (2019), que ganhou nova projeção por figurar na abertura da novela global “Um lugar ao sol”. Na ala das participações especiais, Margareth Menezes trouxe o carnaval baiano para BH ao entoar o hino “Faraó”. Black Alien veio logo na sequência e trouxe de seu repertório duas potentes faixas: “Área 51” (do disco “Abaixo de Zero: Hello Hell”) e “Na Segunda Vinda” do primeiro (e clássico trabalho) “Babylon by Gus, Volume I”, provando que merece figurar em formato solo numa próxima edição.


Quem também tem figurado em apresentações pelo Brasil junto à banda é a cantora chilena, radicada em Belo Horizonte, Claudia Manzo. Junto a ela o grupo executou duas das melhores faixas do disco mais recente dos baianos: “Pachamama” e “Capucha”. Sem sombra de dúvida a banda hoje representa uma das maiores forças motrizes da música popular brasileira e a apresentação do festival colocou essa característica em evidência. Se em disco a banda já consegue entregar bons resultados é ao vivo que a excelência se concretiza.


Há um mês das eleições presidenciais, é preciso registrar que durante todos os shows foram entoados gritos e cantos políticos contra o atual presidente ou a favor do candidato Lula. Por vezes, os próprios artistas se antecipavam fazendo o “L” para a plateia que respondia em peso. Não é possível tratar o fato como mero detalhe uma vez que as manifestações foram constantes e soaram uníssonas.


Na sua nona edição, o Sarará ousou ao máximo ao explorar toda a área da esplanada do Mineirão e oferecer um lineup que atrai pela diversidade. A proposta de shows simultâneos em área tão grande faz com que qualquer cobertura seja entendida como um recorte possível. É preciso pontuar que com grandes eventos vêm grandes responsabilidades e há pontos cruciais a serem melhorados nas próximas edições. De todas as características do festival, a que soa mais insensata ainda é a divisão das pistas que – como vimos pela experiência no Sensacional! que primou por pista unificada – só prejudica a experiência de quem não pode escolher um local adequado para assistir aos shows além de atribuir um caráter segregador indelével.


Do ponto de vista da segurança, chamou atenção o grande número de furtos de celular durante o festival e que aconteceram, principalmente, no camarote open bar do evento. Basta uma rápida busca no Twitter para ler relatos e mais relatos e entender que não se trata de casos isolados, mas a configuração de uma prática lucrativa. A presença de um maior número de seguranças junto ao público seria bem-vinda para inibir esse tipo de ação que marca a experiência individual.


Até quem trabalhou na cobertura fotográfica do festival passou por momentos de tensão, uma vez que o portão de acesso ao pit (área livre entre o público do palco) foi instalado na grade frontal, no meio da multidão. Como o trânsito de fotógrafos portando equipamentos era grande e recorrente, gerou-se alguma animosidade com o público que marcava lugar no início de cada show. Bastava ter instalado o acesso nas extremidades do pit para evitar o impasse.


É preciso pontuar ainda o que de melhor nos saltaram aos olhos: a sinalização bonita e eficiente, o grande número de banheiros químicos instalados, a existência de áreas de acesso prioritário, a presença de um intérprete de libras durantes todas as apresentações, a preocupação com a vulnerabilidade alheia e os primeiros socorros, o setor de achados e perdidos grande e bem localizado, além da presteza de todos os profissionais identificados nas áreas de circulação que pudemos experienciar.


Pequenas adequações em eventos futuros, certamente contribuirão para uma festa mais positiva, mas nada tira o sucesso desta edição do festival que faz parte do calendário mineiro há nove edições. O Sarará conseguiu, por fim, cumprir a proposta de promover a convivência e celebrar a vida de perto num ano tão importante, desafiador e promissor para a nossa sociedade.


Texto originalmente publicado no site Scream & Yell.

Editor: Marcelo Costa

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