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  • Alexandre Biciati

Em noite repleta de fãs, a-ha faz show monótono e previsível em BH

O trio norueguês a-ha acaba de passar pelo Brasil com a turnê “Hunting High and Low”. Foram sete shows que aconteceram em Recife, São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba totalizando 49 apresentações no país – somos o sexto destino onde a banda mais tocou, ficando atrás de Japão, Estados Unidos, Noruega, Reino Unido e Alemanha. Comemorando 35 anos de lançamento do primeiro disco, que dá nome à tour, Paul Waaktaar-Savoy (guitarra, violão e teclado), Magne Furuholmen (teclados) e Morten Harket (vocal), apresentaram praticamente o mesmo repertório nos sete shows no país.


A relação do trio com o Brasil é cheia de histórias. A banda, ícone do pop new wave, esteve outras sete vezes por aqui, sendo a primeira em 1989 – com shows na Apoteose no Rio de Janeiro e no Parque Antártica em São Paulo – quando já haviam lançado os três primeiros discos “Hunting High and Low” (1985), “Scoundrel Days” (1986) e “Stay on These Roads” (1988). Todos os três álbuns atingiram números expressivos de vendagem no país, rendendo à banda discos de ouro e platina.


Em 1991, o a-ha tocou na segunda edição do Rock in Rio e emplacou recorde de público, mas não um recorde qualquer. Na ocasião, arrastaram nada menos que 198 mil pagantes ao Maracanã e, literalmente, entraram para o Guinness Book. Apesar do feito, o grupo foi praticamente ignorado pela imprensa especializada, o que causou enorme frustração à banda. Ao longo de 40 anos de carreira, o a-ha teve dois hiatos dos palcos: o primeiro de 1994 a 2000 e o segundo de 2010 a 2015. A segunda volta em 2015 aconteceu a convite do Rock in Rio para tocar na edição comemorativa de 30 anos da banda e do festival.


Em Belo Horizonte, esta foi a terceira apresentação do a-ha que também esteve por aqui em 1991 no Mineirinho e em 2010 no Chevrolet Hall. Desta feita, o show aconteceu no Expominas em evento que teve ingressos quase esgotados. A banda subiu ao palco com meia hora de atraso e tocou por uma hora e meia para um público cuja faixa etária média empatava com a da própria banda, apesar do grande número de jovens presentes. A primeira imagem exibida nos dois telões laterais foi o mar de smartphones apontados para o palco. Comportamento que se repetiu de forma exagerada durante todo o show e é sempre uma questão sobre a real fruição de uma apresentação ao vivo.


O palco do a-ha não contou com imagens e projeções. Apenas luzes muito eficientes em volume e movimento, colorindo um cenário minimalista formado por quadrantes de led. Pal, Mags e Morten praticamente não saíram de seus lugares na linha de frente, enquanto a banda de apoio tocava sob a penumbra no fundo do palco. Some-se a tais características uma performance em que as músicas soam praticamente idênticas ao disco e temos um show pautado pela monotonia e previsibilidade.


Abriram com “Sycamore Leaves”, que contou com uma empolgação natural de quem esperava ansioso pelo início do show. A próxima foi “The Swing of Things”, do disco “Scoundrel Days”, mas a plateia só esboçou animação legítima com o hit “Crying in the Rain”, música do The Everly Brothers que abre o álbum “East of the Sun, West of the Moon” (1990) – disco de ouro no Brasil. Fecharam a primeira parte com uma música nova, a lenta “You Have What It Takes”, que em alguns shows da turnê no Brasil foi substituída pela também recente “Forest For The Trees”.


A expectativa chegou ao fim quando soaram as primeiras batidas de “Train of Thought” e a banda deu início ao tributo a “Hunting High and Low”. Para quem conhece bem o disco foi uma curtição ouvir as nove músicas – “Take on Me”, naturalmente, ficou para o bis – tocadas na sequência da obra original. Para o restante da plateia que esperava as pérolas radiofônicas para gravar vídeos para as redes sociais, os intervalos entre hits pareciam beirar o tédio. Como era de se esperar, as que animaram mais com o público foram a faixa título e a empolgante “The Sun Always Shines on TV”.


Por mais que a sonoridade das músicas do a-ha soe datada e carregue a marca dos anos 80, há de se elogiar a performance técnica da banda, que, eventualmente, até se esforçou para demonstrar alguma simpatia acenando para o público e arriscando um “obrigado”. Outro mérito a pontuar é que, por mais que um show tão linear e com timbres tão idênticos soe como playback, a banda é eficiente e há quem se divirta com a proposta.


De “Stay on These Roads” (1998), que vendeu mais de 40 mil cópias no Brasil, escolheram para a turnê “The Blood That Moves the Body” e “The Living Daylights” – que precedeu o bis. Do também platinado “Scoundrel Days” (1986), tocaram uma sequência de três músicas: “We’re Looking for the Whales”, “Cry Wolf” e “I’ve Been Losing You”. Durante apresentação dos demais músicos no palco, Karl Oluf Wennerberg (bateria), Even Ormestad (baixo) e Erik Ljunggren (teclados), finalmente alguma luz lhes foi direcionada. Da linha de frente, Magne Furuholmen foi quem melhor interagiu com a plateia desafiando até uma coreografia básica. O tecladista também aceitou gentilmente a divertida bandeira que lhe foi entregue ao final do show.


A banda deixou o palco e voltou quase que imediatamente para fechar com o synthpop “Take on Me” – única música do a-ha a atingir a posição número 1 na Billboard Hot 100 dos Estados Unidos e sucesso absoluto nas FMs brasileiras em meados dos anos 80. Sem dúvidas, o ponto alto do show e único momento em que a plateia soltou a voz sem exceções. Assim como ao longo de todo o show, Morten Harket demonstrou segurança vocal, inclusive no refrão agudo do cartão de visitas do a-ha. A banda saiu do palco sem que os três fundadores protagonizassem grandes manifestações de afeto entre si (quem teve a oportunidade de assistir ao documentário “a-ha: The Movie”, presente no In-Edit Brasil 2022, conhece os motivos).


Colhendo até hoje os frutos de uma época em que a música passava pela pasteurização e patrocínio das grandes gravadoras e os videoclipes funcionavam como verdadeira catapultas do sucesso, o a-ha atingiu números expressivos e conquistou uma legião de fãs no Brasil, que tem se renovado e ainda faz questão de lotar as apresentações. Sobreviventes de uma carreira com altos e baixos, o a-ha se mostrou em ótima forma apesar do excesso de sobriedade. Ao que tudo indica, lançarão mais um disco em breve e, caso saiam em nova turnê, o Brasil será sempre um destino obrigatório.

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