BRASIL X ARGENTINA

Fotografei o da Copa América entre Brasil e Argentina que aconteceu no Mineirão, em Belo Horizonte, da arquibancada. As fotos foram feitas com câmera DSLR e lente analógica - uma Olympus 180mm.

Logo abaixo você pode ler uma crônica desse jogo, encomendada ao amigo Marcos Marciano que também acompanhou a partida.

Aos 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca da Cidade do México, a mesma arena em que a Seleção de Pelé, Tostão e companhia sagrara-se tricampeã mundial dezesseis anos antes, Diego Armando Maradona marcou dois gols históricos contra a Inglaterra: o primeiro com a mão, logo no início da etapa complementar. O segundo, quatro minutos depois, aquele que é considerado o mais bonito das Copas do Mundo. Revejo-os agora pelo celular, indo fazer compras, dentro de um ônibus parado no trânsito infernal do fim de tarde em Belo Horizonte. É dia de semifinal da Copa América entre Brasil e Argentina no Mineirão e o camisa dez dos hermanos não sai da minha cabeça.

Não o de 86, Don Diego, estou falando de Lionel Messi.

 

Pelé, Maradona e Puskás. Ronaldinho, Zidane e Cruyff. Todos os grandes compreenderam que há um poder maior rondando cada jogo, da pelada de rua aos grandes gramados do planeta. Alguns poucos percebem esse poder e ousam pender a balança, desafiar os tais deuses do futebol. Pouquíssimos conseguem e Messi é um deles.

 

O argentino chamou a minha atenção pela primeira vez — e a das divindades, com certeza — lá nos idos de 2007. Ainda um garoto de dezenove anos, às sombras de Ronaldinho, Xavi e Eto’o no Barcelona, ele copiou, quase que de brincadeira, não só o antológico tento de Maradona em 86, mas também o gol de mão de seu conterrâneo num espaço de poucos meses. Vídeos e mais vídeos comparando as façanhas inundaram a internet à época. E hoje ele está aqui, em minha cidade natal, pronto para desafiar os deuses outra vez.

 

Acomodo-me no sofá de casa depois de quebrar alguns recordes em fazer e guardar compras de supermercado. A inveja que sinto de quem tem a oportunidade de estar ali no Mineirão desaparece assim que ligo a televisão e Lionel Messi aparece cantando o hino argentino. A transmissão abandona o capitão da albiceleste e mostra as arquibancadas do estádio lotadas de verde e amarelo. É aqui que percebo: não estou torcendo de fato para o Brasil. Nenhum sentimento antinacional, talvez apenas parte daquela intimidade platônica que criei com Messi por fazermos aniversário no mesmo dia, ou por querer que ele não fique para trás na disputa de melhor do mundo com Cristiano Ronaldo, já que o gajo tem algo que o argentino ainda não tem — um título com a seleção principal de seu país.

 

Enfim, o árbitro equatoriano dá início à partida. Estou tenso. Noto que os comandados de Tite começam melhores, mais organizados. Messi mal é citado pelo narrador, apenas caminha e observa entre as linhas de zaga e meio de campo do adversário, acompanhado de perto por Casemiro e Arthur, os cães de guarda brasileiros. Quando consegue pegar na bola, duas ou três camisas amarelas o cercam. Invariavelmente é parado com falta; quando não, distribui a bola ora para a esquerda, ora para a direita, entretanto já é visível o abismo de qualidade que o separa dos outros argentinos. Creio que, pelas caras e bocas de preocupação que as câmeras captam, o camisa dez também sente a distância.

Ou talvez Messi já perceba algo que para nós passe batido.

 

Por mais que o Brasil siga melhor no jogo, arriscando mais passes e dribles, essa bola que sobra para Daniel Alves no lance do primeiro gol é bizarra. Ele escorrega, ela vem do alto e bate em suas costas, Lautaro Martínez pula para cortar e cai de forma estranha, como se a gravidade naquele exato ponto do campo estivesse diferente. Pergunto-me onde já vi algo parecido enquanto o lateral direito avança com ela dominada, deixa mais um adversário no chão e toca para Firmino cruzar rasteiro para Gabriel Jesus abrir o placar. Acho que os deuses não vão mesmo dar margem para que Messi invente moda hoje, pois compreendi qual é o plano irônico: gravidade.

 

No primeiro jogo da semifinal da Champions League 14/15, o Barcelona venceu o poderosíssimo Bayern de Munique por 3 a 0 no Camp Nou. Messi liderava um tridente sul-americano de ataque formado por ele, Suárez e Neymar. E eis a ironia divina: aos 80 minutos, para marcar seu segundo gol no jogo, um golaço, Messi recebe a bola pela direita na entrada da área, bem marcado por Boateng e — não há outra forma de dizer — aumenta a gravidade daquele metro quadrado de grama onde o pobre-diabo tentava ser zagueiro. O alemão desaba e não sei se consegue ver o camisa dez blaugrana vencer o goleiro Manuel Neuer por cobertura.

 

Voltando ao jogo de hoje. O gol brasileiro desestabiliza a já fraca Argentina. Estão errando passes, voltando demais a bola para o campo de defesa e forçando ligações ao ataque com lançamentos mal feitos. Será que não compreendem que o caminho de uma virada passa necessariamente pelos pés mágicos do seu capitão? Porque ele entendeu o recado irônico, a brincadeira gravitacional dos deuses. É o único querendo jogo. Uma das características marcantes do seu estilo é a forma como conduz a bola colada às chuteiras em qualquer velocidade, guiado por uma força sobre-humana qualquer. Arthur e Coutinho acabam de sofrer com essa magia e Casemiro tem que derrubar o argentino outra vez, próximo ao círculo central. Messi pede um cartão amarelo que não vem. Ele mesmo cobra a falta, a bola viaja metade do campo e encontra a cabeça de Agüero na pequena área, o goleiro brasileiro se estica todo e não consegue fazer a defesa. Ela explode no travessão. A bagunça que se segue perto da meta e as dores nas costas de Alisson são provas do poder e da mudança de postura do craque argentino.

 

Passam-se alguns minutos e lá vem o homem de novo. É o que ele gosta: chamar o jogo para si. Pega a bola no campo de defesa, deixa dois adversários praticamente abraçados para trás com um corte seco e evita o terceiro que tenta o carrinho tão desesperado quanto inútil. Reitero a estranha relação entre os seus pés e a bola em tamanha velocidade. Já na intermediária brasileira, descrevendo um arco do flanco direito rumo à meia-lua, passa fácil pelo quarto marcador canarinho e eu fico na expectativa do chute mortal, mas ele prefere novamente servir a Agüero que acerta a bola em cima de Marquinhos dentro da área. Por que Messi não chutou? Anteviu algo? Jamais saberemos.

 

O último lance de perigo contra a defesa brasileira no primeiro tempo se dá outra vez com Messi. Marcado por Coutinho e Everton na ponta direita, o argentino ginga o corpo entre ambos e engana os dois. Parecem amadores, nem veem a bola. Ela, instável — os deuses são implacáveis — , corre mais do que o esperado e Messi tem que se jogar aos pés de Alex Sandro para recuperar sua posse, coisa que não o vemos fazer todos os dias. Ele se levanta num átimo e arma o chute de canhota, mas as divindades percebem a iminência do gol argentino e o pé de apoio do craque escorrega na hora da finalização. A bola sobe e vai longe do gol. Ainda no chão, arrumando os meiões tortos, Lionel olha impassível para o rasgo na grama ocasionado pelo escorregão. Parece compreender que precisa de mais se quiser superar os brasileiros com a ajuda que estão recebendo. Arthur e Casemiro, aliás, estão num transe bem explícito depois da investida de Messi. Seguem cada passo dele até o final do primeiro tempo.

 

Aproveito o intervalo para rever vídeos de situações adversas já encaradas pelo hermano. Que gênio, que saudades de assistir a um brasileiro desfilar genialidades assim. Coutinho e Gabriel Jesus até tentaram durante a competição algo que pudesse ser comparado ao que, bem, um Neymar faria, mas convenhamos: qualquer brasileiro há mais de década não passa de apenas ótimo coadjuvante, inclusive o nosso atual camisa dez. Esse primeiro lance contra o Brasil no segundo tempo, por exemplo. A Argentina vem com tudo trocando passes, a zaga tenta cortar e a bola sobra para Messi de costas para o gol, dentro de meia-lua e cercado por mais da metade do time de amarelo. Qualquer outro jogador tentaria dominar, girar e bater, no entanto Messi faz diferente. Está dois, três pensamentos à frente e com um toque sutil para seu lado esquerdo, sem deixar a bola tocar o chão, entrega para De Paul que chuta mal e por cima das traves.

 

Coisa de gênio esse passe.

 

Pois é no capitão argentino que revejo a inteligência de Sócrates, os absurdos de Pelé e a magia de Ronaldinho. Talvez o Bruxo brasileiro tenha decidido passar seu bastão ao ainda moleque Lionel anos atrás quando jogaram juntos no Barcelona, para hoje presenciarmos esse movimento rápido e inumano que hipnotiza os adversários, deixa-os mais lentos e enche de raiva os deuses titereiros embolados com suas linhas. Mas hoje são as divindades que sorriem.

 

Sem sombra de dúvida Messi faz sua melhor partida na Copa América. Para mim fica clara a entrega do jogador, talvez por ter sacado que hoje, no Mineirão e contra a Seleção brasileira, os deuses do futebol entrariam na brincadeira pra valer. Apesar do seu esforço a equipe argentina não sai do zero no placar, às vezes por detalhes. Na única bola que sobra livre para o camisa dez, rebatida na defesa brasileira depois de tentativa de Lautaro, o pé esquerdo não erra. Prendo minha respiração. Ele acerta em cheio a cara da bola e ela estoura na trave. Alisson já estava vencido no lance. Não duvido que os mesmos deuses que permitiram o 7 a 1 em 2014 também diminuíram o gol alguns centímetros naquele momento. Detalhes. Assim como nesse misto de drible de corpo e passe para Di Maria que Messi acaba de criar para cima de Daniel Alves. Detalhes. O lateral acaba cometendo a falta na quina da grande área. A torcida vaia e dá para sentir a tensão pelo perigo real do gol de empate. Há alguns meses Messi venceu o arqueiro brasileiro a uma distância bem maior que essa. O juiz apita e ele cobra muito bem, buscando o ângulo direito. A barreira pula o mais alto que pode, alguns jogadores chegam a pular outra vez mesmo depois que a bola passa, mas de alguma forma Alisson já estava ali, carregado talvez pelas cordas invisíveis dos titereiros e agarra firme. Detalhes.

 

Messi parece sentir a urgência de um gol e a clara interferência divina. Recebe novamente passe na intermediária brasileira. Conduz a bola e é perseguido, dribla um, costura o segundo, está espremido pelo time de Tite na entrada da área. Conto uns cinco defensores e mesmo assim o argentino consegue uma assistência milimétrica para Agüero. O camisa nove sofre pênalti claro em minha opinião, negado apenas por algum tipo de cegueira momentânea do árbitro. Messi nem reclama, parece exausto, ou nem tem tempo para reclamar, pois o lance segue num chutão na bola do zagueiro Thiago Silva que cai quase na linha do meio de campo e é dominada por Gabriel Jesus. O centroavante brasileiro arranca, dribla um adversário e segue em direção ao gol. Otamendi vem em sua cola, só que os deuses resolvem usar outra vez o artifício irônico da gravidade aumentada assim que o zagueiro argentino alcança o jovem de amarelo na grande área. Chega a ser cômico: toca as costas de Jesus com a mão esquerda e cai sem mais nem menos. Não satisfeitos com apenas um ao chão — e para mostrar a vocês que eu não estou exagerando quanto à gravidade anormal — , as divindades decidem que Foyth, o lateral direito que vem dar a cobertura, também deve tombar aos pés do atacante. Jesus tem apenas o trabalho de rolar para Firmino, retribuindo a assistência para o primeiro gol. Está praticamente selada a vitória da Seleção. As câmeras buscam Messi antes mesmo de mostrar a comemoração do gol. Ele está triste.

 

Os últimos minutos não são nada bons. Pouco futebol, faltas mais fortes e cartões. Os argentinos não têm mais esquema tático e os brasileiros valorizam a posse de bola. Uma última falta, quase idêntica àquela que Alisson defendeu sem rebote mais cedo é a derradeira chance para Messi. Confesso que espero algum tipo de redenção ou afago divino, no entanto os deuses trabalham bem para que o capitão dos hermanos não sobressaia hoje. A bola bate na barreira e eu solto um suspiro. O camisa dez merecia um gol pela atuação. Mesmo cansado ele insiste mais algumas vezes, mas a defesa bem postada do outro lado não dá brechas. Não dá mais tempo e o árbitro encerra a partida.

 

A comemoração dos brasileiros e o choro de alguns argentinos são reações esperadas. O que eu não espero é ver Messi parado no meio de campo com um olhar estranho. Queria que a transmissão apontasse para seja lá onde o argentino mira os olhos. Ele recebe os cumprimentos de alguns adversários, mas mantém esse olhar fixo em algo que nós mortais não conseguimos ver, mesmo agora, com Daniel Alves agarrado ao seu pescoço em clara reverência a um dos maiores, senão o maior, semideus do futebol.

 

Marcos Marciano