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  • Alexandre Biciati

Orquestra Opus celebra Arnaldo Antunes em belo show em Belo Horizonte

Menos de um mês após o show “Lágrimas no Mar” no Sesc Palladium (relembre aqui), o cantor e compositor Arnaldo Antunes voltou à capital mineira para mais uma apresentação. Desta vez, a convite da Orquestra Opus e no maior e mais tradicional teatro da cidade: o Palácio das Artes. A casa lotou para ver de perto o artista acompanhado por orquestra interpretando as melhores músicas de todas as fases de sua longeva e popular carreira, contemplando composições do Titãs, Tribalistas e carreira solo.


A Orquestra Opus, regida pelo maestro Leonardo Cunha, foi fundada em 2006 e desde então atua no fomento e democratização da música orquestral. Tendo se apresentado em países da europa e américa latina, a orquestra tem no portfólio o projeto “Orquestra Opus Convida” em que leva ao público o melhor da música popular brasileira com arranjos inéditos. Nessa oportuna mistura do popular com o erudito já passaram artistas como Milton Nascimento, Daniela Mercury, Ana Carolina, Fafá de Belém, Guilherme Arantes, Leo Jaime, Flávio Venturini, Sá & Guarabyra, Maria Gadu, Dado Villa-Lobos e Sandra de Sá. Importante mencionar que o valor do ingresso é totalmente acessível se considerarmos as proporções do espetáculo.


Após os 22 músicos dos instrumentos acústicos – além do guitarrista Francesco Napoli e baixista Eduardo Moreira – ocuparem seus lugares, o maestro anunciou que traria ao palco uma surpresa. Muito comunicativo e bem-humorado, Leonardo indagou por sugestões e brincou com as respostas da plateia. Anunciou então a entrada de Derico Sciotti, saxofonista e eterno integrante do Sexteto do Jô, que participa eventualmente de apresentações da orquestra. A uma semana da morte de Jô Soares, Derico homenageou o amigo tocando o tema do programa que lhe deu notoriedade na TV e foi ovacionado ao final. “Na verdade, quando soube do evento, pedi ao maestro para participar”, acrescentou e tomou seu lugar junto à orquestra.


Com a discrição que lhe é peculiar, Arnaldo Antunes entrou no palco trajando preto em harmonia com a sobriedade da orquestra. O show teve início com “A Casa é Sua” do disco “Iê Iê Iê” (2009) e com Arnaldo dançando e gesticulando, levando a exibir o colorido par de braceletes escondido sob as mangas. A próxima música veio do início da carreira, “Não Vou Me Adaptar” (1985) , lançada no segundo disco do Titãs, que levou parte da plateia a se arriscar cantando junto.


Entre as músicas, o maestro conversou com a plateia ou pediu, eventualmente, que Arnaldo Antunes contasse a história das composições. Foi assim com a romântica “Lágrimas no Mar”, que recebeu elogios de Leonardo Cunha que confessou a surpresa em descobrir as canções com as quais tinha pouca intimidade. Arnaldo explicou o contraponto entre as dimensões da gota da lágrima e da amplitude do mar antes de tocar a música que dá nome ao mais recente trabalho.


Assim como o maestro Leonardo se virava para as cadeiras, Arnaldo se voltava à orquestra ao final de cada música, como que em sinal de aprovação e agradecimento. O show seguiu recheado de hits como “Socorro” de 1998 e “Alta Noite” (1993), que exige os graves mais baixos de Arnaldo Antunes e foi também uma das mais aplaudidas. Dos Tribalistas, escolheram “Passe em Casa”, do sucesso de vendas e premiado primeiro disco de 2002, que animou o grande teatro.


Já na metade do show, a esperada “O Pulso” (1989) deu as caras com performance inconfundível de Arnaldo Antunes que dança tal qual fazia em shows do Titãs. O maestro então brincou que aquela tinha animado os “jovens de 15 anos”, naturalmente, se referindo à geração que tinha aquele idade no início dos anos 80. Leonardo chegou a perguntar se a plateia estava usando os smartphones para filmar partes do show, soando ameaçador, e mais uma vez fez bom uso da ironia ao pedir que marcassem, por favor, a orquestra no Tik Tok.


A intimista “Contato Imediato”, do álbum “Qualquer” (2006), resignificou o cenário minimalista de longas faixas brancas verticais que pareciam luzes de uma nave futurista prontas à abdução. Aproveitando o momento de calmaria, Arnaldo ainda recitou o poema “Um Deus” para a atenta plateia. Saída do disco “Infinito Particular” (2006), de Marisa Monte, e atravessando os shows mais recentes dos Tribalistas, a delicada “Vilarejo” também fez sucesso no repertório de Arnaldo Antunes. Voltando a 2004, “Saiba”, música que dá nome ao disco lançado após o estrondoso sucesso de “Tribalistas” (2002). Do mesmo álbum do Tribalistas, o público belo-horizontino ainda curtiu “Velha Infância”, que anunciou o encerramento.


Arnaldo Antunes e Leonardo Cunha deixaram o palco brevemente e voltaram para o bis com “Envelhecer”. Arnaldo contou que se trata de uma composição em ocasião do seu aniversário de 50 anos que rendeu o disco e DVD “Ao Vivo Lá em Casa” (2010). Parafraseando a letra da música, o espirituoso maestro deixou as portas abertas ao artista: “a casa é sua, não demore”.


Fazendo uso comedido do palco durante todo o show, Arnaldo Antunes se aventurou poucas vezes à frente, mas não teve alternativa quando, após sugestão do próprio maestro, a plateia ocupou as bordas. Antes de se despedir definitivamente, fecharam com mais um sucesso absoluto dos Titãs: “Comida” (1987), que foi cantada pelos presentes com empolgação. Ao final, Arnaldo Antunes cumprimentou, gentilmente, um por um dos fãs que se atiravam à frente das cadeiras.


O traço comunicativo e bem humorado do maestro sem dúvida contribuiu para deixar a plateia à vontade. Vale registrar que, como tem sido costume na totalidade dos eventos culturais, ensaiou-se um coro de cunho político, mas que foi logo desestimulado pelo mediador que conteve os ânimos. No dia que será lembrado pelo ato da leitura da Carta pela Democracia no país, apenas um grito de “Viva a Democracia” resistiu ao impasse.


Sob as batutas do maestro Leonardo Cunha, a Orquestra Opus cumpre com louvor a proposta de aproximar música popular e orquestra e fazem desse casamento um presente coletivo para artistas convidados, músicos da orquestra e plateia. Nesta edição com Arnaldo Antunes pode-se apreciar como a obra sensível e tão dinâmica do artista ganha uma camada de requinte que soa ao mesmo tempo original e natural. Definitivamente, o “Orquestra Opus Convida” é um espetáculo onde todos ganham, especialmente quem o prestigia.

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