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  • Alexandre Biciati

BH Tattoo celebra universo das tatuagens com shows de !Slama e Ratos de Porão

Por Alexandre Biciati e Bruno Lisboa


Chegando a sua 10ª edição, o BH Tattoo Festival é um evento consolidado no calendário da capital mineira. Direcionado a entusiastas do universo das tatuagens, o BH Tattoo reúne anualmente centenas de tatuadores de todo Brasil que ocuparam as dependências da Serraria Souza Pinto. O espaço, localizado na região central da cidade, sediou o evento entre os dias 09 e 11 de setembro. Em paralelo às atividades profissionais, aconteceram uma série de shows que agradaram tanto os fãs de música eletrônica quanto admiradores do som pesado.


De forma acertada, a curadoria do festival buscou trazer em seu line up expoentes locais como as bandas The Mist e Eminence que dividiram o palco com ícones do rock nacional como o Ratos de Porão, que fechou a programação. O derradeiro dia de evento foi prato cheio para aqueles que acompanham a cena metal belo-horizontina e oportunidade para bandas de menor expressão se apresentarem para o grande público.


Ao longo de 10 horas de programação o bom público presente teve oportunidade de assistir a bandas dedicadas como a Meggera que representa parte do legado construído por bandas oitentistas como Sepultura e Overdose. Fundada em 2014, a Meggera tem como aposta sonora uma aproximação direta com nu e thrash metal. Com um EP autointitulado e três singles em sua discografia, a banda soube explorar bem o tempo disponível para a apresentação numa performance que conseguiu unir peso, presença e letras em alusão ao universo dos filmes de horror.


Na sequência, foi a vez de uma banda muito admirada e que há tempos não se apresentava em Belo Horizonte. Formado em meados dos anos 90, a !Slama é mais velha que boa parte do público do BH Tattoo. Escalados para tocar antes do Ratos de Porão, o conjunto que integra a cena post-punk de BH, se mostrou extremamente à vontade em cima do palco que já pisou em outras edições do evento. Formada por Dáblio no vocal, Luccones Nascimento no baixo, Aleks Cabral na guitarra e Gleison RC na bateria, o quarteto só precisou de uma música para arrancar aplausos efusivos da atenta plateia que mesclava fãs de carteirinha e ouvidos inéditos.


A fórmula da receptividade é óbvia: o som do !Slama não faz curva, é rock de manual. Do timbre da guitarra à sagacidade das letras e qualidade dos refrões, as composições da banda carregam as melhores características do gênero, soando honesta e espirituosa. A performance de Dáblio ao microfone é um show à parte e deixa claro que no palco a banda também se diverte muito. Músicas como a irônica “Eu Nunca Fui a Inhotim”, a ácida “Poluição” e a dançante “Tiroteio” estavam no repertório dos 50 minutos de show.


O show do !Slama terminou em alto estilo com “10.000 MW” e uma ode à amizade. O palco foi invadido pelos comparsas da banda que cantaram junto e celebraram o reencontro após fatídicos três anos de hiato. A curadoria do BH Tattoo acertou em cheio ao escolher mais uma vez a !Slama para sacudir os ânimos e preparar a plateia devidamente tatuada para o peso do RDP que, literalmente, levantou poeira em seguida.


Formado por João Gordo (voz), Jão (guitarra), Juninho (baixo) e Boka (bateria), o Ratos de Porão é hoje o maior patrimônio da cena punk/hardcore brasileira. Sua vasta discografia, composta por 13 álbuns de estúdio, dois EPs e três discos ao vivo, contempla obras necessárias que guardam verdadeiros hits do punk nacional. Musicalmente, a banda soube explorar o crossover entre o punk e o metal, criando uma sonoridade original que serve de base e influência para pelo menos quatro gerações.


Sem temer represálias, outra marca recorrente são as letras afiadas, que trazem para os holofotes o caráter combativo a regras vigentes orientadas pela ótica do capital e a ideologias reacionárias. O disco mais recente do grupo, “Necropolítica” (que eles amplificaram em uma conversa imperdível aqui no Scream & Yell), é uma boa prova de que a banda ainda é capaz de ser relevante e produtiva, num álbum poderoso que pode figurar facilmente ao lado de outros trabalhos clássicos da banda como o essencial “Brasil” (1989).


Durante o show do Ratos, por mais de uma vez, João Gordo fez questão de elogiar a cidade de Belo Horizonte e salientou que a banda tem ótimas lembranças da cidade. É sabido que, desde o início da carreira, João Gordo frequentou a capital mineira e fez grandes amizades na companhia dos contemporâneos membros do Sepultura àquela altura do campeonato. Coincidência ou não, na véspera do show, João Gordo recuperou na sua conta do Instagram uma foto de 1988 da fotógrafa belo-horizontina Fabiana Figueiredo que documentou com exclusividade a cena musical na época.


Para celebrar as mais de quatro décadas de dedicação ao som pesado, a banda retornou a Belo Horizonte como atração principal do evento. O set composto por 24 faixas dosou, de forma equilibrada, boa parte do repertório construído ao longo da carreira. Faixas como “Caos” e “Crucificados Pelo Sistema” (presentes no primeiro disco lançado em 1984) conviveram em consonância a canções recentes como “Conflito Violento”, do álbum “Século Sinistro” (2014). O público presente correspondeu à altura à performance em alta voltagem do grupo se entregando às inúmeras rodas de mosh durante toda a apresentação.


No bis, a sequência de hinos atemporais como “Igreja universal”, “Sofrer” (ambas retiradas de “Anarkophobia”) e “Crise Geral” (do disco “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo”) encerram um show memorável de uma banda que segue mais urgente do que nunca. Afinal, poucos são os artistas atuais, principalmente na seara do rock made in Brasil, dispostos ao enfrentamento ao governo. Esse fato faz com que a banda soe, ainda mais, importante em tempos em que a apatia, mesmo ante uma crise descomunal, e a subserviência ao fascismo, ainda prevaleça.

Ouvir RDP, em pleno 2022, é um convite à luta e não ao luto. Sigamos!


Texto originalmente publicado no site Scream & Yell.

Editor: Marcelo Costa

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