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  • Alexandre Biciati

Johnny Hooker e Lamparina fazem festa em BH dentro do Festival Som Clube

No último final de semana, Belo Horizonte recebeu a sexta edição do Festival Som Clube, que nasceu em 2000. Ao longo das últimas edições o evento trouxe nomes como Liniker e os Caramellows, Eduardo Dussek, Silva e Simone Mazzer. No domingo (5), foi a vez de Johnny Hooker e Lamparina marcarem presença com discotecagem do requisitado DJ Davi Zaidan (Alta Fidelidade) na praça Marília de Dirceu, no bairro de Lourdes da capital mineira, arrastando uma multidão que acompanhou de perto os shows de forma gratuita.


O evento havia anunciado Lamparina como primeira banda, mas a ordem dos shows foi invertida e Johnny Hooker, expoente do glam pop, abriu a programação às 13h30. Pode-se dizer que o show teve uma carga dramática. Há menos de um mês, o cantor sugeriu em sua conta no Twitter que encerraria a carreira, “Não há mais demanda pelo meu trabalho (…) É preciso saber a hora de se retirar”. Johnny lamentava os números alcançados na ocasião do lançamento do single “CUBA” que àquela altura tinha pouco menos de 14 mil acessos. “(…) antes do fim ainda tem um disco novo inteiro que sai em algumas semanas! Obrigado por tudo! Amo vocês!”, continuou em tom de despedida.


Com cabelos longos, figurino ousado e acompanhado de dupla de bailarinos, Johnny Hooker fez uma apresentação honesta e com boa dose de emoção. Um mastro de pole dance instalado no centro do palco dava suporte às passagens performáticas. O teor erótico evidencia o tema do disco “Ørgia”, disponível a partir de hoje nas plataformas digitais, que trata de sexo como forma de resistência. O show teve início com “Amante de Aluguel” (2021), primeiro single do álbum, e também com um beijaço protagonizado por Johnny e o guitarrista Felipe Rodrigues. Na sequência veio “Alma Sebosa”, do disco “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!” (2015), de onde extraíram a maior parte do repertório.


Antes de cantar “Nhac!”, em que a “explicit lyric” enaltece uma relação sexual, Johnny “homenageou” o presidente em exercício. Foi a primeira das várias vezes que interrompeu o set para trocar figurinhas com a plateia. Ainda lembrou emocionado do amigo e baixista André Soares que morreu de Covid sem ter tido a oportunidade de ser vacinado. Em outra ocasião, interrompeu gentilmente o show até que um carro pudesse atravessar o mar de gente, já que o show aconteceu em área residencial atrapalhando o tráfego. Johnny, cercado por todos os lados, brincou sobre o desafio de tocar num “palco 360”. Outra ilha que deu as caras foi “La Isla Bonita” de Madonna, interpretada com muita personalidade. Em seguida, foi a vez de homenagear Caetano Veloso na canção que leva o nome do tropicalista e cuja letra toma Caetano como adjetivo.


Com uma carreira marcada por posicionamento e ativismo, especialmente do movimento LGBTQIA+, Johnny hasteou outras bandeiras no palco. Durante “CUBA” uma bandeira do país foi entregue por um fã, gesto que pode até ser entendido como apoio pelas declarações recentes. Johnny Hooker cantou a música com ela em punho e fez discurso pedindo que sua música seja ouvida, curtida e compartilhada. Lembrou o recente escândalo do cachê dos artistas sertanejos e reiterou a importância da manutenção da carreira do artista independente por parte da audiência. Outra “bandeira” que figurou no show foi a já famosa toalha do Lula, também enviada da plateia. Johnny não só posou com ela como teceu elogios à aparência de Lula na estampa.


Em seguida, contemplaram mais cinco músicas de “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!”, que rendeu a Johnny Hooker o Prêmio da Música Brasileira de Melhor Cantor de Canção Popular em 2015. Foram elas: a faixa título, “Você Ainda Pensa”, a esperada “Vuelve/Volta”, a visceral “Amor Marginal”, além de “Desbunde Geral” que antecedeu o bis. Do álbum novo ainda tocaram “Larga Esse Boy”, lançada como single em 2021. A música mais pedida pelo público também foi atendida após a banda deixar o palco por alguns minutos: o hit “Flutua”, do disco “Coração”.


Só o tempo dirá sobre o futuro da carreira de Johnny Hooker. Até o momento, o que se sabe é que a banda está de malas prontas para uma turnê na Europa, onde se apresentarão em cinco países, incluindo um show no Rock in Rio Lisboa no dia 26 deste mês. E que “Ørgia” acaba de sair do forno e está disponível nas plataformas digitais. Se você gosta do trabalho de Johnny Hooker e quer apoiar sua carreira, corre lá, escute o disco, deixe seu like e compartilhe a obra!


Na sequência, e algumas semanas após um belo show n’A Autêntica, a banda Lamparina tocou do final da tarde até o crepúsculo e fizeram um show com repertório maduro e produção notável. Ao entrarem no palco a primeira coisa perceptível foi o figurino harmonioso dos músicos em tons de verde e laranja que, dadas as características do evento, transmitiu um frescor coerente com as próprias canções. Tocar em BH sempre tem um gostinho diferente e, dessa vez, a Lamparina ainda contou com a honrosa presença da família dos músicos no pit.


Da primeira música “Ela Joga” à última do setlist, o que transparecia era um deslumbramento mútuo por parte de quem assistia e de quem fazia o show do palco. Com repertório que olha pra frente, a Lamparina não tocou músicas do primeiro disco de 2018 “Manda Dizer”. Metade do show foi do álbum “Zam Zam” (2021), o que prova a relevância do novo disco que se faz suficiente. Os singles “Ligeiro”, “Pequim”, “Conversa Fiada”, “Canseira”, “Amarelou” e “Não Me Entrego Pros Caretas” (seguida de ofensas ao atual governo federal) também fizeram parte da apresentação.


Cotô Delamarque, sempre muito sorridente, demonstrou empolgação crescente e sensibilidade. Antes da primeira metade, o vocalista e guitarrista chamou atenção pela presença de crianças na frente e laterais do palco. “A gente adora quando vocês compartilham vídeos com nossas músicas, mas, especialmente quando são crianças”. Apontando para a grade continuou, “Estou vendo uma menina aqui na frente que está cantando tudo… depois vem tirar foto com a gente”. O carisma garantiu à família da menina acesso mais que merecido na área reservada.


A noite já caia e as luzes de palco mostravam serviço quando, sem falsa modéstia, Cotô Delamarque anunciou a saideira: “Temos uma música na novela! E é a música do par romântico da trama”, referindo-se a “Pochete” (2019), trilha de “Cara e Coragem”. O palco já estava pequeno para Cotô que subia onde podia para se comunicar melhor com todas as pontas da multidão que ocupava praça, rua e janelas. Parece que aguentou o quanto pode, mas se rendeu à vontade de descer e se juntar ao público. A lotação não o impediu de abrir uma roda e promover uma festa ao lado dos fãs que deliraram com a presença do artista no chão.


Com sotaque mineirês assumido nas vozes de Cotô e da estilosa Marina Miglio, o show da Lamparina é uma aula de dinâmica e bom uso de tendências rítmicas. A música que apresentam ao vivo tem todos os elementos do pop usados de forma profissional e sem excessos, o que, se não justifica, faz merecido o sucesso da banda. Pela reação geral e participação dedicada do público, ficou nítido o impacto da performance da Lamparina no Som Clube que atingiu em cheio os “lamparinetes” e não deixou incólume nem a pessoa mais desavisada.


O festival Som Clube ainda terá mais duas datas de shows gratuitos. A partir do dia 19 a programação retorna para o endereço dos anos anteriores, Rua Antônio de Albuquerque com Paraíba. Os shows da próxima data contam com as presenças de DJ Joca, Adriano Campagnani e Silvia Machette . No dia 26 terá as apresentações de DJ Bárbara e IzaEgidio, Túlio Araújo e Choro Amoroso e Luedji Luna.

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